Entrevista com a bióloga e apresentadora de TV, Rosa Maria Tavares, no dia 04 de maio de 2012
Por Cinthia Viana
Rosa acha importante em uma profissão, além do dinheiro, algo que dê prazer e abra caminhos, acredita que muitos dos benefícios à vida profissional são indiretos
A
primeira vez que Mônica Martinez disse à turma sobre uma entrevista que
faríamos com alguém que fizesse a diferença no mundo, só consegui pensar em uma
pessoa: Rosa Maria.
Rosa
é daquelas pessoas que te contagiam com a animação só de estar ao lado. Professora,
apresentadora da TV Educativa, comentarista da Globo, presidente do conselho
deliberativo da ONG Care Brasil, bióloga especialista em biotecnologia em
projetos de estudo étnico-raciais com ênfase na população negra.
Filha
única, seu pai faleceu antes mesmo de ela nascer. Teve duas mães: a biológica, dona Elvira, mineira e excelente cozinheira, e a madrinha, dona Ofélia que
apesar de ser de outra família acolheu a jovem grávida quando veio à São Paulo preparar
banquetes. Propôs-se a cuidar do bebê que estava a caminho: “Se é pra criar, eu vou criar com tudo que é
possível sem a deixar uma chata.” Conta Rosa entre risos.
Estudou
por toda sua vida em uma mesma escola, Caetano de Campos. Considerada na época uma instituição que apesar de pública no
mesmo nível da consagrada Rio Branco. O colégio promovia feiras de ciências, o
que a influenciou para seguir a Biologia, além de possuir um laboratório maravilhoso
e professores interessantes. Sempre teve a certeza que seguiria a área
biológica, mesmo sem saber ao certo a profissão. Até pensou em fazer Ed. Física,
porém na época o curso estava em baixa, e o padrinho a convenceu de que não
seria uma boa escolha. Arrepende-se de não ter insistido, mas afirma que ficou
confusa e não teria feito o curso em outro momento da vida.
Foi
uma aluna desinteressada no ensino fundamental, não copiava absolutamente nada
em seu caderno. Um dia a professora chamou sua mãe e Rosa escutou uma frase marcante:
“Sua filha nunca será ninguém na vida.”
Aquilo a mudou completamente, no ano seguinte teve uma mudança drástica e se
tornou super-responsável.
Rosa
exerce diversas atividades, e isso já é uma característica antiga, sempre se
interessou por muitas coisas diferentes. Quando pequena ia para a escola e à
tarde para a ginástica, onde conheceu meninas e fez um programa de crianças que
viajavam pelo Brasil.
Aos
treze anos começou a se sentir incomodada por ser bem mais alta que as outras
crianças. “Hoje em dia é bem legal ser
alta, mas nem sempre foi assim.” A mãe e a madrinha acharam interessante
que fizesse um curso de modelagem para não virar um trauma, o que rendeu vários
trabalhos para a jovem.
Na
infância, Rosa sofreu preconceito racial. Queria se sentir igual às outras
crianças, não em termos de aparência e sim de consideração. Em alguns anos era
a única menina negra da escola no período em que estudava. Para se sentir
valorizada estudava muito. “Eu ficava
triste, lógico.
Percebia que era um absurdo, eu ter doze anos de idade e ficar me matando para
fazer um trabalho para ele sair perfeito. Sendo que, ele já
estava bom, mas tinha que ficar perfeito para que fosse valorizado.” Também fez parte de um time de
vôlei, apesar de não gostar muito de jogar, jogava bem e se sentia valorizada
fazendo parte do time.
Rosa
tem um lado artístico que se manifestou por meio da dança e do teatro. Quando
criança participou da peça Pinóquio, em que fazia o papel de Gepeto, pai do
boneco-menino. Porém no dia, uma das professoras que estava maquiando as
crianças, pegou talco e uma pomada branca para passar na pele de Rosa. Indignada a jovem disse que não
passaria os produtos no rosto, tendo como resposta: “Mas como?! Você tem que
passar, o Gepeto é branco.” “Aquilo acabou com a minha vida teatral.” Relata sobre o episódio.
A
família a orientou muito bem, e a bióloga acredita que o equilíbrio se dava
pelo fato de a mãe ser negra e a madrinha, branca. Conheceu jovens que já estavam envolvidos
em entidades sociais para a questão do negro, e então foi criando uma
consciência sobre o assunto.
Formada
pela USP, sentiu que a graduação abriu portas, mas não pelo diploma em si e sim
pelos contatos que fez. Teve aula com Nélio Bizzo, influente biólogo, o encontrou
em diversas bancas de doutorado e ele a indicou para um trabalho na UFSCAR
(Universidade Federal de São Carlos).
Rosa
depois de um tempo de formada, foi assessora na Secretaria da Educação,
trabalhou para Chopin Tavares de Lima, secretário do Estado de São Paulo. O representava
em eventos, vários programas e projetos na Secretaria. Foi convidada em 1994, a
participar do livro “Caetano de Campos –
Fragmentos da Historia da Instituição Pública no Estado de São Paulo.” Pois
o prédio da Secretaria fica no mesmo local onde era o Caetano de Campos e o
convite apareceu quando souberam que Rosa tinha estudado no local. O artigo chama-se “Memórias em Rosa e Negro.”
Uma brincadeira por se chamar Rosa e ser negra. Um dia enquanto trabalhava, no
auditório da Secretaria, acontecia a apresentação de um novo projeto, o TV
Escola. Interessou-se imediatamente, pois a idéia era uma TV dirigida a
professores, alunos, e a rede de ensino em geral. Foi atrás do projeto e começou
a apresentar, mas precisava de um registro, o de locutora de TV. Foi estudar e
os convites começaram a aparecer, em TV Educativa, o interesse da bióloga.
Alguns dos trabalhos de Rosa na TV são “Descobertas do Homem” e “Sociedade
Brasileira”.
Para
Rosa a chave de tudo é o equilíbrio, apesar da rotina agitada sempre estabelece
prioridades. Além do dinheiro em uma profissão, acredita que é importante algo
que dê prazer e abra caminhos. E esse equilíbrio é dado também por contribuir
para um mundo melhor.
A
Care surgiu em sua vida por conta de
um antigo trabalho na Solidarity Center,
uma organização americana. Foi
fazer um trabalho de prevenção a AIDS e doenças sexualmente transmissíveis para
jovens trabalhadores de indústrias. “A ONG, na época, estava interessada
em mudar o conselho, então foram em uma organização que deveria conhecer
brasileiros, mas que tivessem uma relação com os Estados Unidos. Apesar de eu não
saber se era meu perfil, vi que era uma organização ligada ao meio ambiente e
acabei ficando no conselho deliberativo”.
Administrar
ser presidente de uma ONG exige muito equilíbrio e disciplina. Mas garante que
ao fim do ano se volta completamente para a atividade de docência, pois nessa
época acontecem os vestibulares. “É o
momento dela.” Refere-se à
reta final, em que os alunos estão mais ansiosos. Rosa leciona Biologia em um
cursinho pré-vestibular em São Paulo, com duas unidades, uma em Santana, e
outra no Tatuapé, dá aulas às terças e quartas.
Há
vinte anos é casada com Luiz Paulo. Chegou a morar nos Estados Unidos depois do
casamento, durante quase dois anos. “Só
podia casar com alguém que fosse da área de jornalismo mesmo, da comunicação.”
E não à toa, o conheceu no trabalho. Na
época em que trabalhava na Secretaria da Educação surgiu um trabalho de fazer
uma revista com o tema sobre treze de maio, dia de debate e denúncia contra o
racismo. E era necessário um jornalista para dar idéias e também um fotógrafo,
então foi chamado o Luiz Paulo, justamente por ser repórter-fotográfico. “Já o conhecia de alguns eventos, mas dessa
revista que a gente começou a ter um contato maior. Ele fez um trabalho lindo
para nós.”
Outra
pessoa que tem um grande espaço no coração de Rosa é Mônica Teixeira. Uma
jornalista que sempre a orientou muito bem, com um olhar diferente sobre o
mundo.
Para
o futuro, Rosa garante uma coisa: escrever cada vez mais. Tem duas publicações,
lançou uma coletânea em 2001 que saiu em artigos nas revistas para
Universidades e em 2010, o livro “Lendas da África Moderna” que foi selecionado
pelo Programa Nacional da Biblioteca Escolar, do MEC, que só neste ano adquiriu
mais de 47 mil exemplares.
Quando
a questão é religião, segue um sincretismo religioso, como muitos brasileiros. A
casa da mãe era cheia de imagens de santos, conta que os adora. Também admira o
candomblé e o budismo. Porém a maior identificação é com o espiritismo. “Gosto de ler Allan Kardec, ele tem umas
soluções muito boas.” E na prateleira da bióloga também se encontra Machado
de Assis, uma paixão literária desde a infância, e Guimarães Rosa.
A
felicidade e recompensa se dão a cada dia. Acredita que a diferença é cada um
contribuir para um mundo melhor. “Ampliei
minha visão de mundo viajando, lendo, sorrindo, chorando, ficando uma fera com
o universo e em outros momentos agradecendo por ele ser tão maravilhoso.”
No
cursinho em que dá aula dá um jeito de colaborar para que todos tenham as
mesmas oportunidades. “Se me chamarem
para dar aula, como já dei, para alunos de colégio considerados classe A e uma
moça que trabalha como doméstica também pedir e ambos forem em um domingo a
tarde, eu vou aos dois. Para ter um mundo mais justo. A diferença é a gente ir
aprendendo com as pessoas. A gente nem tem que pensar se está fazendo ou não, à diferença. Seja o lugar que for, estar cem por cento.”
Rosa terminou a entrevista agradecendo-me por tê-la escolhido e que um exemplo de retorno do trabalho dela é justamente eu estar ali.
Rosa terminou a entrevista agradecendo-me por tê-la escolhido e que um exemplo de retorno do trabalho dela é justamente eu estar ali.