No antigo espaço onde havia a Casa de Detenção de São Paulo, agora está situada a Escola Técnica (Etec) de Artes. Frequentada por artistas, jovens e educadores, que passeiam por seus corredores todos os dias. Uma escola onde anos antes, foi um dos prédios da famosa prisão do Carandiru.
Coordenar e lecionar em uma escola voltada para o campo das Artes, não é uma tarefa fácil no Brasil. É um verdadeiro trabalho de formiga no qual diariamente o músico, professor, coordenador, regente e compositor, Claudio Sant’ Ana, se dedica. Claudio nasceu em uma pequena cidade do interior de São Paulo, Cosmorama. Tão pequena que o próprio e novo rei dos mapas, Google Maps, demora a detectar. Mas Claudio afirma: “O Google Maps mostra a casa onde nasci”. O músico coordenador nos cedeu a sua sala na Etec para conceder a entrevista. Sentamos em uma mesa redonda e a entrevista acabou se transformando em um agradável e descontraído bate-papo.
Claudio escolheu uma caneta azul e um papel e começou a desenhar figuras geométricas enquanto falava conosco. Apesar de se considerar natural de Cosmorama, nasceu a 12 km de distância da cidade. No meio do mato, com parteira. Sua família mudou-se para São Paulo quando ele tinha dois anos, mas boa parte de sua infância foi vivida no interior, local onde sempre passava as férias.
Os pais estudaram até o quarto ano primário e trabalharam como boias-frias. Mas faltava trabalho em Cosmorama. No primeiro trabalho em São Paulo, seu pai quebrava pedras em uma antiga empresa que atualmente é a Bombril.
Claudio contou que sua mãe não tinha um berço e o deixava em uma bacia, com o cachorro ao lado tomando conta dele, enquanto ela caminhava até a roça para levar comida ao marido.
As melhores lembranças de sua adolescência estão na cidade do interior. Era lá que ele fazia o footing, a paquera de antigamente. Os jovens se encontravam na praça e caminhavam prá lá e e pra cá, com o objetivo de se conhecerem.
Aos dez anos de idade, Claudio começou a tocar violão. Não tinha interesse nenhum no instrumento. Na verdade, o que o menino queria era uma bicicleta. Tinha aprendido a andar com uma bike achada em um terreno baldio da Zona Leste. O pai acabou dando um violão, pois não queria que o filho ficasse na rua. Um garoto, que era até então habituado a ficar em casa, desenhando e escutando rádio, assustou os pais com a sede de ir para a rua, de conhecer o mundo.
Com o hábito de escutar rádio, Claudio criou para si algumas brincadeiras: primeiro, ele fazia bonecos para usá-los como músicos. Depois, arrumou um cabo de vassoura, onde amarrou fios e começou a brincar de ser músico.
Daí para o palco foi um pulo. Aos onze anos, fez a sua primeira apresentação em público. “Mas eu só entrei no palco porque meu professor mandou”. Nesta época, tocava música popular e iniciou o aprendizado de música erudita. As aulas aconteciam numa igreja e os primeiros contatos com a partitura não lhe agradavam muito.
Na sequência, Claudio começou a estudar Eletrônica e, ironicamente, ficou com um trauma para sempre. Um raio caiu em sua casa e no momento ele estava com o dedo na tomada. “Até hoje quando vou trocar uma lâmpada em casa, desligo toda a corrente elétrica para ter certeza e ainda chamo testemunhas”, conta entre risos.
Quanto ao violão, ficou esquecido por um tempo na adolescência. Na oitava série, Cláudio percebeu que só tinha amigos quando estava com o instrumento na mão, quando estava sem nada, todos sumiam. Então resolveu arrumar amigos de verdade, sem interesse. “Eu era chamado pra um monte de festas, mas era só por causa disso, daí parei”. Depois naturalmente arrumou outros amigos, “Carrego isso comigo até hoje, se eu perceber que alguém se aproxima por interesse, eu corto. Quando as pessoas estão interessadas em trabalho, não somos amigos, podemos ser as duas coisas ao mesmo tempo, mas cada uma em seu lugar. A gente não discute trabalho na sala de casa e a gente não vai ficar falando de jogo de futebol no trabalho”, completa o músico.
Quando voltou a tocar aos 17 anos, foi por sentir saudade do instrumento. Pouco tempo depois, em época de vestibular, prestou Filosofia na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Exatamente quando começou a faculdade, o Brasil vivia a era do Plano Cruzado, política econômica que jogava para a população uma média de 120% de inflação ao mês. No começo, a mensalidade dos estudos correspondia a 20% do salário de Claudio, e no final do ano esse valor já correspondia a 250% de seu salário. Resultado: o estudante teve que largar o curso...
A mãe sem estudos acabou aprendendo muito quando o músico e suas irmãs pediam ajuda nas tarefas de escola. “Ela sabia menos que a gente, daí nós explicávamos para ela e todos aprendíamos”. O pai pegou o hábito de ler jornal por causa dele. “Eu achava chique ler o jornal todos dias”, lembra Claudio. Dentre as primeiras coisas que comprou com o primeiro salário, o jornal foi uma delas. “Assinei a Folha de S. Paulo por mais de 20 anos, mas parei porque as notícias econômicas começaram a me dar palpitação”, brinca o professor.
“Meu maior ponto de inveja na infância era uma caixa de lápis de doze cores, mas depois nem tanto por eu ser dautônico. Mesmo assim achava bacana ter todos aqueles lápis, eu tinha dois ou três e tinha que passar com eles o ano todo”, recorda.
Para Cláudio, o problema do dautônico é acabar se vestindo com diversas cores que não combinam. Então, ele opta por tons monocromáticos para evitar esse tipo de problema. “Às vezes quando vou me despedir para sair, minha mulher me manda voltar por eu estar parecendo um arco-íris”.
Embora católico, Claudio diz ser muito crítico em relação às questões religiosas. “Eu não sei se sou um católico liberal, porque a gente se considera liberal quando está dentro do contexto”. Aos catorze anos quase seguiu para o seminário, ele estava com a ideia fixa na cabeça sobre ser padre, estava escolhendo onde iria estudar, e brinca que às vezes bate um arrependimento de não ter seguido a batina. A crítica de Claudio é bem clara, ele comenta que é muito comum, principalmente em cidades do interior como Cosmorama, o padre falar algo e todos adotarem aquilo como correto. “Ele não é autoridade”, protesta.
O músico diz que na faculdade de Filosofia acabou fortalecendo ainda mais sua fé. “Eu via os erros. A gente só percebe o erro daquilo que gosta. Porque quando você não gosta, você despreza”, argumenta. Ele explica que tem muitas coisas no Catolicismo das quais gosta e outras que discorda. Faz uma comparação com o casamento: “tenho duzentos milhões de defeitos, minha esposa tem os dela, mas ela também tem as qualidades. E eu também devo ter as minhas porque ela está me suportando até hoje”, brinca.
O professor não teve filhos. “Mas no lugar deles, tenho dois cachorros”, diverte-se. A princípio foi uma opção não ter filhos, mas depois foi por obrigação mesmo. “No começo a gente não queria, quando você casa quer curtir a vida, o casamento. Está no clima daquela fase de namoro ainda. Depois quisemos ter, mas a Márcia não engravidava. Quando fizemos os exames, descobri que eu não posso ter filhos”.
Casal de professores, ambos atendem muitas pessoas. “É uma vocação para ser tio, gastamos mais de 50% do nosso tempo atendendo os outros.”
Marcia é professora de educação infantil. Conheceu Claudio em uma escola. Depois de ter aberto mão de cursar Filosofia, unicamente por questões financeiras, o músico foi estudar Turismo. Após a formação, começou a procurar emprego na área, mas já dava aulas de violão desde os 17 anos. Além disso, tocava em festas de casamento, bailes e em tudo que aparecesse uma oportunidade para tocar.
Quando Claudio se formou em Turismo, já não compensava. “Diante do que eu ia ganhar viajando, era melhor ficar aqui estudando. Já que era assim, aprofundei nos estudos da Música.” Fez seis anos de Universidade Livre de Música (ULM), depois de terminar foi para a faculdade de Música e fez os quatro anos. Quando saiu, estava com o espírito de mudar o mundo. “Coisa de universitário. Você sempre acha que vai fazer algo diferente, mas não. E é bom pensar que vai, porque aí é legal descobrir isso depois”, diverte-se.
Para o professor, o ser humano só cresce errando e nós vivemos do empirismo. Naquela época, o recém-formado Claudio queria mudar a humanidade, considerava que todos ouviam músicas ruins. Pensou: “Isso precisa ser mudado pela base”. Foi então que ele foi lecionar em uma escola infantil, e lá conheceu a esposa.
Por outro lado, se ele não conseguiu mudar a humanidade, já conseguiu mudar a vida de muitos de seus alunos. O professor aponta vários casos dos quais são motivos de orgulho para ele. Entre eles, o caso de uma pessoa que pensava em suicídio e mudou radicalmente de ideia por conta de incentivo a paixão pela música. “Tem gente que entrou aqui na Etec para estudar Música porque não sabia o que queria fazer. Hoje em dia está na Unicamp. Me superando. Melhor do que eu. Acho fantástico quando o mestre é superado pelo aprendiz”. O segredo para conseguir esses resultados ele revela: “você tem que educar seu aluno para ele ser melhor do que você.”.
Após anos de carreira como músico e professor, Claudio fala de sua aposentadoria. Conta que continuará tocando. “Músico não para, morre”, brinca o professor.
Atualmente ele não tem tempo para tocar e compor suas próprias músicas. A última vez que teve esse privilégio foi anos atrás quando ainda estava estudando. Depois de um almoço na casa da mãe começou a tocar o que era para ser qualquer coisa, mas o resultado acabou sendo uma música pronta no dia seguinte, terminada na casa da namorada, hoje esposa, Marcia. Após horas de composição durante a madrugada. “Composição é 1% de inspiração e 99% de transpiração. Para isso tem que ter tempo. A música vêm do ócio, daí o ócio criativo”.
Para ele, o nome da música não tem a menor importância. Observa que as pessoas focam muito em tentar descobrir o motivo de o artista ter colocado tal nome em determinada música, mas não é isso que define o som. “Eu abro uma revista, aponto meu dedo em certo lugar do texto e se lá estiver escrito: ‘madeira’ vai ser esse o nome da minha música”, conta o professor. Recorda da forma que famosos músicos do século XIX nomeavam suas músicas. “Por exemplo, a quinta sinfonia. Por que ela tem esse nome? Simples. Porque ela foi a quinta. É muito óbvio. A música não precisa de um bom nome, precisa de uma boa qualidade de som”.
Teve como inspiração musical seu próprio professor. “Eu sempre queria tocar tudo que o meu professor tocava e ele sempre estava na minha frente. Ainda bem”, lembra Claudio.
“Eu sou um péssimo exemplo. Tudo que acontece na minha vida é por conta do acaso. Não adianta eu planejar”, revela Claudio. Foi por causa da insistência de uma amiga, que o músico começou a dar aulas particulares em sua própria casa. “Em um mês ela já havia espalhado para várias pessoas. Já tinha 20 alunos”, relembra. Um dia foi comprar cordas de violão em uma escola perto de sua casa, depois de um bate-papo foi chamado pela dona para dar aulas no local.
Em relação à oportunidade de tocar em festas de casamento não foi diferente. O professor foi convidado pelo gerente da escola em que dava aulas para ajudar no coral de uma igreja. “Eu
prometi a mim mesmo que iria chegar lá e não iria falar que sabia ler partituras. Iria ficar quieto. Cheguei lá e estava uma zona horrível. Não me aguentei”, conta o professor.
A partir deste momento, o coral tomou uma grande dimensão. “Fomos convidados para participar de vários casamentos. Fui obrigado a formar uma empresa”. Após nove anos de funcionamento, o negócio foi fechado. “O motivo foi falta de compatibilidade de sócios. Falei para minha amiga que preferia perder a empresa a nossa amizade”, lembra.
Dentre tantas experiências, Claudio teve a oportunidade de ir para a Itália em 2000 para participar do evento "Manifestazione Culturale Brasileirando: i colori, la cultura, la gente in occasione dei 500 ani della scoperta Del Brasile", nas cidades de Florença e Campi Bisenzio. Para o regente, a parte mais curiosa foi ensinar mestres da música erudita na Itália a tocarem chorinho. Recorda-se de uma mulher que segundo ele, era o símbolo da perfeição. Fazia tudo corretamente e nunca errava. “Tive que ensinar a ela a tocar chorinho, tinha horas que implorava pelo amor de Deus para ela errar um pouquinho”, brinca. No final, o resultado foi um belíssimo concerto feito por italianos que tocaram a verdadeira música popular brasileira. Além da experiência profissional, conta que também foi importante no aspecto cultural. Apesar de ser descendente de italianos, Claudio não sabia falar fluentemente a língua, mas graças à estadia no país que pôde aprimorar seu italiano. Conta que nos últimos dias de sua viagem era reconhecido como um italiano e não como um estrangeiro. “Me perguntavam de qual região da Itália eu vinha”.
Na opinião de Claudio, para ser um bom músico, acima de tudo tem que ter paixão pelo que faz. “Se você não tiver paixão, vai fazer as coisas pela metade e isso vale para todas as profissões e todas as coisas na vida”, finaliza o professor.
