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sábado, 23 de junho de 2012

Entre rezas e pragas

- Olha isso, Rosana! Que pouca vergonha! - disse Amélia para a amiga enquanto puxava um pedaço da cortina da janela de sua cozinha.
- Que indecência! A Marina que não abra o olho que em pouco tempo essa empregadinha tira o marido dela. - falou após um pai-nosso deixando o terço em cima da mesa.
- Você não viu ontem, Rosana. Só faltavam se agarrar no meio da rua... Este bairro já foi mais bem ocupado viu?!
- E eu que não sei? Minha família está aqui desde a década de vinte... Se meu falecido pai visse tamanha falta de respeito aos bons costumes, ficaria doente!

Dona Rosana já era uma senhora de sessenta e sete anos. Levava flores à igreja todos os dias. Morava a três casas de dona Amélia e frequentavam-se muito. Já a outra amiga acendia velas aos santos. E, enquanto visitavam a casa do Senhor, iam reparando na vizinhança.

- O padre Fermino está ficando cada vez mais mão de vaca. Você percebeu que ele está desligando as luzes da capelinha à noite?
- Percebi. E também percebi que ele está ficando mais gordo. Deve estar usando o dinheiro do dízimo e da capelinha para encher aquela pança.
- Nossa Senhora de Fátima vai castigá-lo!

E assim foram rezando e pragando os maus costumes.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Fala sério, mãe!

- Filha, vai sair desse jeito?
- Que jeito? - disse a garota com uma entonação paranoica, olhando para a roupa devidamente escolhida por duas horas e meia.
- Assim como quem não tem mãe... Muito curta essa saia.
- Ai mãe, fala sério, desencana. Super na medida minha saia.
- Super na medida de periguete.
- Mãe!
- Que foi? Vai colocar uma coisa que te cubra mais.
- Ah não... Eu tô super atrasada, o Lu já deve estar lá.
- Lu?
- É...
- Quem é "Lu", Maria Helena?
- O Lucas.
- Lucas, filho da Tânia?
- É...
- Mas que mania de ficar abreviando nome, menina.
- Você me odeia, né?
- Mas que besteira é essa, agora?
- Fala sério! Implica com tudo... Com minhas roupas, com o modo que eu falo...
- Ai filha, você está muito dramática...
- Eu. Tô. Dramática? - disse a menina ficando monossilábica.
- É. E, se não colocar uma calça agora, não vai se encontrar com Lu nenhum.
- Ai! Tá bom, dona Lúcia... Já tira o carro da garagem então que eu tô super atrasada.

Maria Helena só conseguia pensar na depilação em vão. Ninguém ia ver suas pernas lisinhas. Sofrer com cera quente em vão! Deveria ser crime. Só podia ser o universo conspirando contra ela. Colocou a calça mais justa do guarda-roupa e desceu apressada para a mãe levá-la.

- Filha, esqueci de te avisar uma coisa... Hoje é aniversário da sua avó e você vai comigo para a festa. E sem uma palavra a mais, que eu já liguei para o Lucas e desmarquei seu encontro.
- Você fez o quê??
- Ai como você anda rebelde ultimamente, Maria Helena... Deve ser a internet.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Último beijo

Renata se despediu de Fernando com um longo beijo. Aqueles de cinema. De dar inveja a qualquer atriz iniciante fã de Brigitte Bardot. Fechou a porta do táxi, tirou os sapatos e entrou com toda cautela no apartamento. Talvez fosse uma cautela para não acordar daquele maravilhoso sonho.
No dia seguinte sentiu Fernando distante. Caraminholas passaram pela cabeça da moça. Mas que diabos havia acontecido em menos de vinte e quatro horas?
Fernando se cansou. O fogo se apagou. O último beijo já se selou.

Silêncio

... E o negócio aperta mesmo quando está eu comigo mesma pela noite. Quando tudo está em silêncio e tudo que eu consigo ouvir são meus pensamentos. Quando não tem a droga da TV ligada tirando você um pouco de foco. Aí que você volta com a droga do seu sorriso e seu olhar que me apaixonou. Te amo e te odeio.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Muros invisíveis

Posso o ver o Sol se pondo de onde estou.
As lembranças doces do passado...
Tudo que restou
Aquela guerra não foi minha
Nem sua.
Era apenas tudo que tinha.
Tento esquecer
Mas seu nome aparece do nada
Num livro
Numa anotação qualquer...
Tento derrubar os muros que construí
Para me proteger de você
Mas eles ficaram tão altos
Que não tenho mais forças para colocá-los ao chão.
Tenho certeza de que tudo que fez por mim não foi em vão.

Lunática

Fecha-se um novo ciclo.
Tudo que ela queria agora era poder dar um grito
Mas seria demais para a sociedade
Alguém com nenhum vaidade
E todo o amor pela humanidade...
Ser praticamente um mito.
O diferente é ruim para eles
O normal é matar e morrer.
Matar todos os dias
Viver nas fantasias é para quem é lunático.
Nesta terra isso não serve
Para esta terra é tarde demais.